(Miguel,
é este o documento. Está disponível na net. De qualquer forma, deixo aqui uma parte que vai de encontro ao que falámos. Os destaques são meus.)
«O artigo de opinião, na sua laboriosa estrutura argumentativa, “tende [tal como o discurso político] a operar directamente sobre a realidade para a modificar, através do seu influxo sobre a opinião pública (…).”O jornalismo de opinião é um género discursivo a quem é consentida, em relação ao jornalismo informativo, uma maior liberdade de criação e o uso de recursos estilísticos mais ricos, devidos a quem tem por função argumentar e discorrer responsavelmente, por certo, mas mesmo assim, ad libitum. Em todo o caso, como nos lembra Ayala, todos os géneros jornalísticos partilham de um mesmo ‘preceito retórico’, a concisão que se justifica por limitações de espaço disponível mas também pela procura de eficácia de discurso que, por ser escrito para ser lido, faz do raciocínio a sua virtude.
No género editorial ganha particular eficácia a prova técnica do ethos de quem subscreve o artigo ou editorial. E porque o ethos é construído de cada vez que alguém fala ou escreve, é importante verificar quais são os ‘topoi’ de que parte o sujeito de enunciação para construir o artigo, como faz ele a hierarquização dos valores e quais as premissas de que parte para fundar a sua argumentação.»
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«Tal como o jornalismo de opinião, também o jornalismo informativo tem compromisso com a retórica. De facto, tal como o jornalismo de opinião, o jornalismo informativo pode, pela sua própria eficácia performativa, “contribuir também de maneira directa para modificar a realidade.” O jornalismo informativo tem um lugar importante na formação de uma opinião pública esclarecida, capaz de assumir o seu lugar e função na tomada de decisões colectivas. É atendendo a isso que o nosso ordenamento jurídico outorga aos órgãos de comunicação social o “cumprimento de um interesse público relevante”.
Patrick Charaudeau refere que “o objectivo da informação consiste em transmitir ao outro, o cidadão, um saber que é suposto ele ignorar. Mas para que este acto seja justificado, é preciso que o saber em questão possa ser reconhecido como verdadeiro. O objectivo da informação obriga a dizer o verdadeiro [que, diz ele] repousa tanto sobre a descrição dos factos como sobre os seus comentários.” A intencionalidade presente nas práticas do agendamento, na construção do título e da notícia são porventura os melhores indicadores para avaliar critica e reflexivamente se o jornalismo informativo que nos é servido cumpre ou não este “objectivo democrático de informar” comprometido com a verdade. Percebe-se bem que um “fazer saber austero” dispensa o jornalismo informativo de grandes recursos oratórios. A ele se aplica, com mais propriedade do que a qualquer outro género, o “preceito retórico da concisão” que se manifesta numa escrita escorreita e breve que reporte o mais fiel e objectivamente possível a realidade percepcionada. Ao “preceito retórico da concisão” vem juntar-se dois outros preceitos relativos às ‘exigências particulares da prosa informativa’: o preceito da clareza e o da necessidade de atrair e fixar a atenção dos leitores.
De facto, o jornalismo informativo esforça-se por recobrir uma grande diversidade de temas, na preocupação de ‘captar’ a heterogeneidade dos públicos, com os seus diferenciados níveis de exigência e de curiosidade. Mas, por via desta ‘intenção utilitária’, própria de quem presta um serviço em troca de algo, mesmo quando presta um ‘relevante serviço de interesse público’, “a retórica do jornalismo informativo aproxima-se [segundo Ayala] da técnica publicitária e do anúncio mercantil.” Sustenta o autor que a notícia, tal como o anúncio, procura exercer influência sobre o ânimo do leitor e, neste sentido, a notícia é “de algum modo tendenciosa” e manifesta a antiga vocação da imprensa como veículo de opinião.» Hermenegildo Ferreira Borges, Espaço público e ‘retórica do jornalismo’