Às voltas com a vida
São 9:45h duma manhã calma de Abril. Ouve-se uma gravação. Um carro parte para a habitual ronda de publicidade, distribuindo panfletos e apontamentos sonoros pelas ruas. Algumas crianças aproximam-se e pedem insistentemente bilhetes. São oferecidas algumas entradas: o público é sempre o melhor meio de divulgação, e, toda a gente do Circo sabe, não há melhor público que as crianças.
Quando Philip Asteley, o famoso mestre de cerimónias inglês, em 1768, teve a ideia de juntar palhaços e dançarinos aos jogos equestres - então muito populares em Inglaterra -, iniciou uma nova forma de apresentar e conceber os espectáculos de Circo que, de certa maneira, perdura até aos dias de hoje.
No entanto, não é na Inglaterra mas na China e no Antigo Egipto onde encontramos as mais antigas referências ao Circo: vestígios arqueológicos indicam-nos que milénios antes da nossa era já se identificavam representações de malabaristas e domadores nessas remotas paragens.
Também na Índia e Grécia Clássica se encontram referências às representações circenses, mas é com a Roma Imperial que estas actividades são transformadas num espectáculo visual, plástico e divertido que rapidamente se expande por toda a Europa. Os Jogos romanos dividiam-se em Jogos Circenses e Jogos Teatrais ou cénicos. Os Jogos Circenses, anteriores aos Teatrais, ofereciam corridas de cavalos, combates de animais e exibições atléticas. Só mais tarde surgem os combates de gladiadores e apenas num pequeno período, próximo do fim do Império, é instaurada a pena de morte na arena às mãos do vencedor e se assiste ao martírio de cristãos.
Presa à liberdade
Encontramos a Susana a ensaiar o seu número, suspensa num cabo e bem próxima do topo do chapitô. O aparato é uma estrutura metálica em forma de lágrima onde se fazem algumas exibições de contorcionismo.
Apesar de trabalhar nas alturas com as fitas e a corda, Susana mostra algum receio. Não tem muita prática neste número e o aparato, construído para uma pessoa de maior estatura, traz-lhe alguma insegurança. Esforça-se por ensaiar uma coreografia onde se sinta mais à vontade. "Mais logo, com a casa cheia, tudo será mais fácil, é o público que nos faz... e o trabalho... claro...!" É aplicada e exigente. O filho, Aníbal, com 4 anos, observa, atento, e pede-lhe que não caia.
A Susana é o Circo. São 34 anos de entrega a um amor seguro e, ainda que a razão, por instantes, a tenha empurrado por outros caminhos, confessa que é no palco “onde me sinto em casa. Mesmo com 40 graus de febre estou lá a picar o ponto, preciso das pessoas, dos aplausos. O Circo será sempre a minha vida”.
Perfeccionista, sente falta das pequenas "multas" aplicadas pela direcção do circo há uns anos atrás: "não se deve entrar em palco de uma forma descuidada... é imperdoável que alguém se apresente com uma meia rota ou um fato sujo!”
Com ideias bem estruturadas em relação ao futuro do Circo, mostra dúvidas quanto aos novos artistas: "Quem nasce no Circo, transporta-o para sempre no sangue... mas é pena que algumas destas pessoas, sobretudo as mais novas, se mostrem um pouco incrédulas quanto ao futuro do Circo tradicional. Por outro lado, assiste-se, de há algum tempo a esta parte, ao crescimento da atracção pelas actividades circenses por parte de quem pertence a universos muito diferentes, os chamados, num vocabulário muito próprio do circo, pategos - sem nenhuma conotação negativa" -, explica, "são os que caíram no circo sem quaisquer raízes... como a minha mãe... " - e sorri. "Penso que esse fascínio - com excepções, pois, com certeza, há quem acabe por seguir uma carreira no Circo - esmorece em pouco tempo...
Também para Susana a vida já deu muitas voltas. Quando o filho nasceu procurou outro rumo, uma vida “dita normal”: um emprego não itinerante, uma casa a que pudesse voltar todos os dias. "Motivada, acabei por me inscrever num desses cursos subsidiados, mas as coisas não correram bem. Fiquei à beira de um esgotamento, pois não podia estar fechada entre quatro paredes”. Não tardou em voltar ao emprego de sempre: "apesar de ser uma vida de constantes mudanças, pois os artistas, na maioria dos casos, mudam frequentemente de circo para evitar uma certa saturação por parte do público, é assim que me sinto livre."
Comprometida com o Circo, Susana consegue desta forma garantir a liberdade de que gosta.
"Quando regressei ao circo, não tinha nada: caravana, roupa, aparatos, nada! Agora as coisas estão melhor, consegui comprar esta caravana, fui fazendo grande parte da roupa que utilizo, e cá estou!
Assistimos à maquilhagem e aos preparativos que antecedem a entrada em cena - pormenor que a deixa pouco à vontade, pois não está habituada a que o façam. Saímos da caravana, é hora de se vestir. Pouco tempo depois está pronta: um fato brilhante é coberto por um casaco comprido, vermelho escuro, comum a alguns artistas, que ficará fora das luzes do palco quando fizer o seu número. De cabelo escuro, apanhado e delicadamente enfeitado com 3 ou 4 bolinhas brancas, a maquilhagem assume agora um papel importante, revelando uns expressivos olhos azuis. A Susana é baixa mas muito elegante, o fato, brilhante e justo, e os sapatos de salto fazem com que pareça um pouco mais alta. Faz uns alongamentos e benze-se, está prestes a tirar o casaco...
Se é inegável que o Império Romano teve um papel fundamental na instituição de espectáculos de Circo, é na Idade Média que o Circo passa a fazer parte do imaginário colectivo europeu.
As enérgicas proibições de todo o tipo de representações, teatrais e de circo, ordenadas por um novo poder emergente do fim do Império Romano – a Igreja Católica – levaram a que muitos artistas tenham sido obrigados a mudar de profissão, ou a optar pelo nomadismo.
Com o passar do tempo, as artes do espectáculo foram ressurgindo por toda a Europa. As feiras medievais proporcionavam espectáculos com jograis, saltimbancos e momos, ricos em fantasia, mistério, magia. Do confronto entre os vários grupos emerge uma ainda maior criatividade e a necessidade de aprofundar e aprimorar os espectáculos, com uma constante procura de novidades.
Os espectáculos de feira revelaram-se importantes instrumentos de diversão, festa e comunicação populares. A extraordinária popularidade destes espectáculos, onde a comunicação directa com o público é permanente, aliada à transgressão às regras que representava este modo de vida, era a justificação para que frequentemente estes artistas fossem perseguidos e as representações proibidas pelas autoridades políticas e religiosas medievais.
Porém, os espectáculos que podemos chamar de “Circo Moderno” derivam da cultura Renascentista que extremou a atracção pela antiguidade e exotismo.
O espectáculo correu bem. Recolhem-se roupas e sapatos no controlo. Susana procura o filho e trocam pequenos mimos. Acusa alguma dor na coluna que, apesar de recuperada, teima em mostrar marcas que o contorcionismo que fez quando mais nova deixou. Nessa altura, ouve mesmo quem lhe dissesse que, se continuasse com actividades físicas exigentes, ainda acabava numa cadeira de rodas. Hoje, o único “aparato” com rodas na sua vida é a caravana e talvez a própria vida que, de forma convicta, insiste em não deixar fugir.
O circo e os animais
A relação dos animais com o Circo foi sempre de grande intimidade, desde os domadores da Antiguidade, à utilização das feras no Circo Romano até aos jogos equestres popularizados nos Séc. XVIII e XIX. A relação entre o Circo e os cavalos foi e é ainda tão forte que era frequente ouvir que “circo sem cavalos não era circo”.
Ainda hoje em dia os animais continuam a atrair um número significativo de pessoas ao Circo, em particular as crianças. De acordo com um estudo francês realizado em 1992, as crianças não concebem um espectáculo de Circo sem os grandes felinos, elefantes e outros animais exóticos; por outro lado, o público adulto é mais permeável a espectáculos de novo circo, onde a ausência de animais constitui uma marca fundamental, alicerçada numa espécie de “contrato moral” entre o homem e a natureza e entre o artista e o público.
O referido estudo demonstra que na sociedade francesa o Circo é uma instituição de referência, cuja função social é a de reunir a família à volta da criança. O futuro do Circo, em particular o Circo Tradicional, parece, então, passar pela estabilidade da taxa de natalidade. Esta identificação do Circo como espectáculo para crianças não é, porém, a sua ideia fundadora, e se hoje assim é, tal poder-se-á dever à “cristalização” dos números apresentados pelo Circo Tradicional, que apenas para as crianças passaram a ser uma novidade.
Philip Asteley foi o pioneiro da transformação dos espectáculos equestres no Circo Moderno. Proprietário do Royal Amphitheatre of Arts, teve o mérito de inovar as exibições equestres com a introdução nos espectáculos de um novo elemento que jamais deixará o circo: o clown ou palhaço, um sobrevivente do Arlequim da Commedia dell’Arte.
Estes espectáculos realizavam-se num terreno descampado nos arredores de Londres, pelo que se tornava necessário atrair o público até ao recinto. Este objectivo era conseguido através de um trompetista que percorria as ruas da cidade: uma antiga forma de publicidade que ainda hoje encontramos nas gravações publicitárias que os carros munidos de altifalantes usam para avisar e cativar público para o espectáculo.
Também nessa época o espaço de realização dos espectáculos sofreu alterações. O recinto ainda não era ainda circular, como hoje, mas antes rectangular, a lembrar os recintos onde se realizavam os torneios medievais. As constantes exigências do espectáculo, motivadas pelas inovações introduzidas, levaram P. Asteley à necessidade de adaptar o espaço à forma circular, que, entre outras coisa, permite simultaneamente “ver e ser visto”.
É também neste período que a palavra “Circo” surge associada a estes espectáculos, quando, em 1782, Charles Hugues, um rival de Philip Asteley montou um novo recinto de espectáculos a que chama “Royal Circus”. Desde então passou a confundir-se a palavra “circo” como referência quer ao edifício e quer ao tipo de espectáculo que lá se realizava.
(...)
Enquanto houver crianças…
Assistimos ao espectáculo deste lado, na sombra do "controlo", os bastidores. Ao som de um apito seguido de uma alegre marcha musical, os artistas entram todos em palco para um breve desfile de apresentação inicial. As entradas individuais estão perfeitamente memorizadas e, no momento exacto, cada artista aguarda a sua vez junto à cortina. As apresentações sucedem-se e, entre trocas de roupa apressadas, faz-se o último ensaio e o aquecimento para que nada falhe. Após o número, cada um regressa à sua caravana, aguardando que a familiar música lhes anuncie, em alguns casos, uma segunda entrada em palco. O pequeno Aníbal, entre algum sono e de mãos dadas à tia Cheila, vai recordando as músicas utilizadas:"esta é a dos cavalinhos...". O Igor e o Carlos, palhaços, transportam a brincadeira para o controlo e, desta forma, entre as várias entradas e saídas de palco, durante o mesmo número, é frequente a brincadeira continuar, do lado de cá da cortina.
O final está organizado da mesma forma que o início, com a participação de todos os artistas no desfile e espaço para uma pequena exibição de cada um.
O dia vai longo. Todos abandonam agora o recinto, dirigindo-se para as caravanas. A sessão da noite acaba entre as 23:30h e as 00:00h e o silêncio é quase absoluto em redor das caravanas. Os mais novos conversam um pouco ou arriscam uma saída.
Amanhã é outro dia, agora é tempo de descansar um pouco, comer algo e beber um chá ou café. A Susana tira a pintura dos olhos, veste o pijama ao Aníbal e mostra-nos, orgulhosa, a nova disposição dos móveis na caravana, agora com mais espaço para ela e para o filho. É tarde. As roupas e os rostos perderam algum protagonismo. As primeiras, deixadas a um canto, estão por algum tempo menos luminosas, e os rostos, verdadeiros e sem maquilhagem, se formos ao café, ninguém os irá reconhecer. De qualquer forma, esta é a vida que escolheu:
La strada. Com mais ou menos sobressaltos, a caravana da Susana recusa-se a parar - o Aníbal gosta do Circo. E nós, ao fim de uns tempos na companhia destes artistas, acabamos por acreditar que, seja qual for a forma da arena, com ou sem animais, com um maior ou menor número de intervenientes, tudo parece confirmar a frase que ouvimos e que se apresenta como o alicerce da esperança de muitos artistas, velhos e novos, quanto ao futuro do Circo Tradicional: “enquanto houver crianças, o circo não acaba”.
(Natália Cardoso /Artur Vaz Oliveira/Dezembro de 2007)
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Referências Bibliográficas:
-Reis, Luciano, História do Circo, Famílias e Modalidades, Ed Setecaminhos, Lisboa, 2004
-Oliva, César & Monreal, Francisco T., Historia Básica del Arte Escénico, Ed. Cátedra, Madrid 2000
-Jacob, Pascal, Pistes et Plateaux, ou l’Art de la Métamorphose, in Théâtre Aujourd’hui nº 7, Cirque Contemporain, la Piste et la Scène, Centre National de Documentation Pedagogique, Ministère de L’Education Nationale, de la Recherche e de la Technologie
-Guy, Jean-Michel, La Transfiguration du Cirque, in Théâtre Aujourd’hui nº 7, Cirque Contemporain, la Piste et la Scène, Centre National de Documentation Pedagogique, Ministère de L’Education Nationale, de la Recherche e de la Technologie